Dâne-ye anjîr-e ma’âbed (2024) | Dir.: Mohammad Rasoulof |
O diretor e roteirista Mohammad Rasoulof é um ativista notável do Irã. Seu descontentamento com diversos aspectos do governo iraniano é traduzido nos filmes que produz. Há décadas que seu país vive sob um regime autoritário controlado, entre muitas outras figuras controversas, por um líder supremo. São diversas repressões impostas à população e quem mais sofre com essas restrições, tema central em A Semente do Fruto Sagrado, são as mulheres.
Obrigadas a seguir as regras do hijab, elas não podem sair nas ruas com a cabeça descoberta, não podem viajar sem a permissão dos maridos, têm acesso a menos oportunidades de ensino e não podem ocupar certos cargos no governo. Rasoulof decide tocar nessa ferida e explorar um dos assuntos “proibidos” da sociedade iraniana. Para isso, gravou este filme, com quase três horas de duração, em total sigilo dos órgãos públicos. Seu ativismo o fez ser preso e sentenciado a uma pena de oito anos no Irã. No ano passado, conseguiu fugir e lançar o filme no Festival de Cannes, com apoio da França e da Alemanha. O longa ganhou o prêmio especial do júri e foi selecionado pela Alemanha como representante na corrida do Oscar, sacrificando algum projeto nacional por esse espetáculo único.
Acompanhamos o pai de uma família com duas filhas e sua esposa que moram em Teerã, quando ele recebe uma promoção em seu cargo público. A nova posição promete um salário maior e opções de moradia melhores. Sua função: assinar condenações à prisão, tortura ou morte de figuras consideradas “revolucionárias” pelo governo, sem nem mesmo poder estudar a fundo os documentos do caso. Suas filhas começam a enveredar por outro caminho, ao tomarem conhecimento dos protestos por igualdade promovidos por suas colegas de escola e faculdade.
Após alguns primeiros minutos lentos, o filme engata em uma série de acontecimentos chocantes. Primeiro acompanhamos a cobertura televisiva sobre os protestos. Nos canais de comunicação sancionados, desculpas atenuadas são exibidas para justificar o desaparecimento ou morte de certos manifestantes taxados como agressivos. Já na internet, as meninas conseguem ver que a situação é diferente. Mulheres sem hijab em atos pacíficos são espancadas e sequestradas pelas autoridades. Como se os planos do fotógrafo Pooyan Aghababaei não fossem impressionantes o suficiente, a edição intercala com trechos reais, filmados em smartphones pela população, da repressão descomedida ordenada pelo governo.
A Semente do Fruto Sagrado faz questão de envolver seus personagens diretamente nesses conflitos. O destaque está na Soheila Golestani, atriz que interpreta a mãe das meninas. Seu interesse é manter em segredo a posição do marido, ao mesmo tempo que tenta dissuadir as filhas de se juntarem às manifestações, querendo manter o status quo. Ela sabe que as condições para as mulheres são difíceis, mas sempre foi assim e ela conseguiu crescer nesse mundo; para que mudar? Sua jornada em se desprender da “linha dura” representada na figura do marido e começar a defender as filhas em meio aos acontecimentos da trama é dolorosa para ela, duvidando de cada decisão e de qual lado deveria estar.
Não é difícil entender sua personagem quando é casada com alguém como Iman, interpretado por Missagh Zareh. Sua divisão é entre o governo e a família. Ele quer unir todos ao idealismo do regime, reforçado nele ao ganhar vantagens com as promoções de cargo. O conflito escalona quando as filhas começam a tomar posições mais fortes em casa, contradizendo o pai. Seu arco talvez seja o mais chocante do filme, quando é obrigado a tomar um posicionamento rígido mais perto do trecho final. Vale dizer que os dois atores estão atualmente respondendo a processos no Irã pela participação no projeto.
Talvez o mais impressionante seja o que vemos as duas meninas passarem, interpretadas por Setareh Maleki e Niousha Akhshi. Por mais que se familiarizem com os movimentos de direitos igualitários, elas nunca se envolvem diretamente nas manifestações. Mesmo assim, serão obrigadas a pagar um preço alto por trazerem esses assuntos para casa, onde julgavam estarem seguras.
Durante as quase três horas, começamos com um drama familiar e desembocamos em um suspense de tirar o fôlego. Mohammad Rasoulof se prova um excelente dialoguista por boa parte do projeto, mas é na hora final que sua direção aflora. Se a duração te intimida, vá ao cinema com a certeza que nesse último terço você não terá coragem de olhar para o relógio, apreensivo para descobrir que fim terá aquela família.
Trazer pautas políticas relevantes e perturbadoras nem sempre significa que teremos um filme com impacto. Há de se ter uma boa estrutura narrativa que empatize o espectador com as condições de um país que, para nós brasileiros, está muito distante. Sendo assim, A Semente do Fruto Sagrado pode ser pesado por tratar de algo real e muito presente. Sua existência em si é quase um milagre, refletindo a perseverança de um povo que clama por mudanças e mantém viva a esperança de que elas, apesar de todos os custos, um dia se tornarão realidade.




