Crítica: Nosferatu | O mesmo Drácula de sempre, agora com bigode

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Nosferatu (2024) | Dir.: Robert Eggers |

Nosferatu de 1922 é um marco no cinema mundial. O diretor alemão F.W. Murnau tentou comprar os direitos de Drácula, escrito por Bram Stoker, mas a família do autor já falecido na época não quis cedê-los. Mesmo assim, seu intuito em trazer o grande pai dos vampiros às telas era enorme. Ele encomendou um roteiro com pequenas alterações e mudou o visual do conde galã da Transilvânia, que rejuvenesce ao longo do livro com sangue fresco, para um monstro corcunda, dentuço e ainda mais amedrontador.

Esse foi o pontapé inicial em uma série de adaptações da obra original que perduram até hoje, algumas mantendo a fidelidade ao material e outras divergindo completamente. Nos anos 70, Werner Herzog decidiu reviver o monstro adaptado por Murnau em seu filme Nosferatu: O Vampiro da Noite. Trazendo Klaus Kinski no papel principal, quase um vampiro maléfico na vida real, e costurando uma nova narrativa sobre a peste na Europa.

Agora, mais de cem anos após o projeto que começou tudo, chegou a vez de Robert Eggers contar essa história à sua maneira. Thomas Hutter (Nicholas Hoult) é convocado pelo escritório imobiliário onde trabalha para viajar à Transilvânia e fechar a venda de uma propriedade para o recluso Conde Orlok (Bill Skarsgård). O conde pretende mudar-se de seu castelo ciclópico para a Alemanha, na mesma cidade onde o jovem corretor vive. Obrigado a deixar a esposa Ellen (Lily-Rose Depp), Thomas não está preparado para a jornada sombria que afligirá ele e sua amada enquanto distantes.

Não se engane pela locação alemã e os nomes trocados, aqui temos a mesma história do romance original, seguida quase à risca. Entra o primeiro aspecto enfadonho. É uma releitura com poucas novidades narrativas, mais do mesmo para quem conhece ou o livro ou outras adaptações. Me faz perguntar por que o Eggers escolheu chamar o filme de Nosferatu em vez de Drácula, se não vai tomar nenhuma liberdade narrativa como as quais Murnau tomou em 1922; à exceção do final, quando dá um protagonismo maior a Ellen do que Mina tem no livro de Stoker. Convenhamos, a conclusão é um dos pontos mais fracos do romance e quase toda adaptação cinematográfica diverge para melhor.

Ademais, o texto não favorece os atores. É uma junção de arcaísmos ingleses incompreensíveis que não se encontrariam tão prolificamente em um mesmo livro do século XIX. Faz todo diálogo parecer extremamente polido e pouco natural. Os atores estão presos em uma visão rígida do diretor e roteirista sobre como deveria ser o período em que a trama se desenvolve. Eu nunca soube para quem torcer, já que o casal principal Nicholas Hoult e Lily-Rose Depp são talvez os personagens mais desinteressantes. O filme ganha um pouco de vida quando Willem Dafoe entra em cena, interpretando uma espécie de Van Helsing, chamado pelo personagem de Ralph Ineson para ajudar a combater “o oculto”. Os dois formam uma boa dupla, mas que também são desfavorecidos pelo roteiro que não sabe trabalhar outras emoções além do medo. Sem empatia com os personagens, não há para quem torcer ou temer.

Outra possível razão para evocar o Nosferatu original está no próprio monstro, que tem a forma original do ator Max Schreck em um figurino conhecido por todo cinéfilo. Bill Skarsgård interpreta o vampiro, mas está enterrado em quilos de prótese, irreconhecível. Isso não é um elogio, já que o personagem pouco aparece na tela e não é desenvolvido. Eu vejo como o jogo de luz e sombra poderia aumentar o misticismo do personagem, que cai por terra com o sotaque do Leste Europeu escolhido por Skarsgård. Soa cômico e bizarro da forma errada. Para piorar a situação, o Conde Orlok tem um bigode imenso no meio da cara, uma escolha estética incompreensível que tira todo o terror do design original de 1922. Não tem como descrever de outra maneira, é fake.

As fortes imagens de Murnau, referência do expressionismo alemão, não são alcançadas por Eggers e sua paleta de cores frias e azuladas. Em um breve momento vemos a sombra da mão do vampiro atravessar a cidade, uma construção visualmente interessante, mas faltam mais momentos assim que destaque o projeto. No final, quando finalmente revela o visual completo da criatura, já é tarde para chocar o espectador, que esperou mais de duas horas por aquele momento.

Nosferatu, lançado no Brasil este ano, pode ser melhor apreciado por quem não conhece a obra original ou nunca teve contato com outra adaptação de Drácula. Para quem espera algo novo, vai ter que olhar bastante para encontrar aqui um destaque que valha a duração alongada. Talvez faça bem ao Robert Eggers voltar para os filmes independentes, como A Bruxa e O Farol, e com menos possa contar histórias mais interessantes.