Crítica: A Verdadeira Dor | Muita emoção, pouco emocionante

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A Real Pain (2024) | Dir.: Jesse Eisenberg |

Sabe aquele episódio em uma sitcom com muitas temporadas em que os roteiristas, sem saber mais o que inventar, criam um irmão inconveniente para o protagonista? Esse personagem aparece de surpresa na casa, irrita o espectador e o protagonista, eles eventualmente brigam mas se entendem antes do irmão ir embora, de volta à sua vida fora do programa. A Verdadeira Dor, dirigido, escrito e estrelado por Jesse Eisenberg é esse tipo de narrativa, em um filme com uma hora e meia de duração.

David (Jesse Eisenberg) é um homem bem sucedido, mora em Nova Iorque com a mulher e o filho, porém precisa reencontrar seu primo Benji (Kieran Culkin) que não vê há anos após a morte da sua avó. Ela deixou no testamento um dinheiro para os dois visitarem a Polônia, seu país de origem de onde escapou após a Segunda Guerra Mundial.

Benji, por mais que primo de David, é como o irmão problemático dos sitcoms que mencionei. O desconforto do personagem de Eisenberg com ele é claro, desconfiando de seu caráter impulsivo e imprevisível ao longo da viagem. Tudo que Benji faz é lido por David como uma ameaça a sua vida nova-iorquina e o sucesso que atingiu, em contraste com o primo adulto que ainda mora em um subúrbio no porão da mãe e está desempregado.

Para quem assistiu Succession, pode esperar a mesma atuação do Kieran Culkin, de quem eu gosto muito na série, mas aqui parece fazer uma versão pobre do seu personagem Roman. Em relação ao Jesse Eisenberg, tenho problema com suas três principais funções nesse filme. Como roteirista, não traz nada novo. É um roteiro muito quadrado, monótono, sem surpresas e sem uma construção na tensão que te prenda ao longo da trama. Na direção, sua personalidade é nula. Ele dá ênfase ao texto, sem espaço algum para sutilezas. Os personagens não param de falar do início ao fim, explicando tudo que sentem em palavras. Sempre expositivo, nada é dúbio ou interpretado por gestos. Como ator, gosto dele em diversos outros filmes, mas não há nada que o marque nesse projeto. Sua conexão pessoal com a história que decidiu filmar não é traduzida para a tela em nenhum desses três polos, consolidando A Verdadeira Dor como um filme pouco memorável.

Ao tentar trabalhar a temática do Holocausto de forma contemplativa, Eisenberg transforma um dos assuntos mais emocionantes e sensíveis da história mundial em uma história sem catarse. É um dos únicos filmes de ficção a conseguir autorização para filmar em um campo de concentração real, usado em uma sequência rápida e sem o impacto de projetos recentes como A Zona de Interesse. Os poucos momentos de comédia entre David e Benji não são suficientes para segurar a duração de um longa-metragem; e quase todos os momentos sentimentais onde eles brigam ou relembram a infância feliz ao lado da avó, são enfadonhos a ponto de eu querer pular as cenas.

Após a temporada de premiações, que está rendendo diversos prêmios ao Kieran Culkin, A Verdadeira Dor é um forte concorrente ao esquecimento. Para quem estiver tentando zerar a lista antes do Oscar, sugiro deixar esse como um dos últimos. Ao menos, o filme me trouxe uma coisa boa ao acompanhar a viagem dos primos pelo belo país e seus monumentos, um desejo imediato de visitar a Polônia.