Arcane | Temporada 02 | Criador: Christian Linke e Alex Yee |
Foi uma longa espera. Três anos de hiato entre temporadas da série feita para expandir o universo do jogo League of Legends, que ultrapassou a comunidade jogadora e se tornou um fenômeno cultural. Durante esses três anos fiquei feliz em esperar, confiante que o resultado visual e narrativo seria no nível da primeira temporada, se não melhor.
Os visuais criados pelo estúdio francês Fortiche para a série foram e ainda são revolucionários. Com o catálogo extenso de personagens do jogo na mão, os roteiristas focaram no momento perfeito, uma história sobre duas irmãs e a triste briga que as separa. Muito foi feito nos nove episódios lançados em 2021 pela Netflix, com produção da Riot Games. Parecia que a série estava pronta para se expandir mais ainda nas temporadas seguintes.
Foi por esses e outros motivos que a comunidade de fãs ficou surpresa quando anunciaram este ano que a segunda parte tão aguardada dessa história seria a final. O mundo das séries sempre teve esse problema com encerramentos. É do interesse dos estúdios e canais manter algo de sucesso fidelizando uma audiência pelo maior tempo que conseguirem. Recentemente, graças aos serviços de streaming e às “filmificações” das séries, mais projetos autorais ganharam espaço, tendo início, meio e fim planejado e cumprido por seus criadores, sem precisarem se alongar até o canal decidir terminar o contrato. Sou a favor de cada história ser contada no seu tempo certo, independente da duração. Entretanto, havia várias linhas narrativas se desenvolvendo na primeira temporada de Arcane e tantas promessas de caminhos para personagens que foram surgindo, que duvidei na hora do anúncio se haveria tempo para tratar de tudo antes do encerramento. O impacto final ainda é incerto para mim, e temo dizer que parte das minhas preocupações se concretizaram ao desligar a televisão após assistir ao último episódio.
Na segunda temporada de Arcane, voltamos imediatamente ao fim da primeira. A briga entre as irmãs Vi e Jinx elevou-se a um nível que as cidades onde habitam, Zaun e Piltover, precisam entrar em guerra. O estopim é a explosão do conselho da cidade rica, causada por Jinx, afetando quem habita lá e alguns que estavam no prédio nesse fatídico momento, incluindo Jayce, Viktor, Mel e Caitlyn. Adjacentes à guerra, ainda temos o retorno de favoritos da primeira temporada, como o rebelde Ekko, o adorável professor Heimerdinger e a comandante de guerra Ambessa.
Vamos primeiro laurear quem merece. Os três anos de desenvolvimento se provaram ouro para a Fortiche, que conseguem ultrapassar os conceitos visuais da primeira temporada. Não só a qualidade da animação em si está melhor, a direção se permite brincar mais com o formato e trazer composições visuais de cair o queixo. Desde lutas em que há tanto acontecendo na tela sem respiros, até em momentos de calmaria durante os quais apreciamos a riqueza das cidades e os elementos que as rodeiam. Não há cena feia ou elemento inútil em quadro, não há trecho que pareça inacabado ou apressado e não há críticas que possam ser feitas ao estilo gráfico, que rivaliza com os maiores orçamentos do cinema e ultrapassa em qualidade toda concorrência.
O trabalho de voz também mantém o alto nível. São atuações fortes, com entregas marcantes e emocionantes. É notável o esforço dos atores em dar vida aos personagens e a qualidade da direção de dublagem. O destaque fica novamente para a Ella Purnell, que se livrou com sorte de Yellowjackets e agora é a estrela de Fallout, e Hailee Steinfeld, que me impressiona pelo desempenho forte aqui e mediano nas outras séries em que participa. As duas interpretam as irmãs Jinx e Vi, respectivamente. Parece que elas estão ali, em frente à câmera atuando uma com a outra, ao invés de uma cabine em estúdio. É palpável cada ameaça, xingamento, e emocionante os raros momentos em que elas se permitem ter uma conversa franca para entender onde tudo deu errado.
Não posso deixar de mencionar o trabalho do Mick Wingert como Heimerdinger, um personagem impossível de odiar e extremamente carismático. Dão até uma música para ele nessa temporada, que ele canta e toca em uma espécie de banjo retrofuturista. A Katie Leung como Caitlyn transmite suas dores ao perder pessoas importantes, sem saber qual rumo deve seguir, e o Ekko do Reed Shannon me surpreendeu em um momento emocionante durante um dos últimos episódios dessa temporada.
Dito tudo isso, não há uma boa história sem um bom roteiro, e aqui entra o problema com a segunda temporada de Arcane. Repetir a fórmula de nove episódios se provou curto para fechar as histórias e arcos prometidos, tamanho o escopo alcançado ao fim do primeiro ano. Na anterior, os episódios foram diluídos em três arcos lançados semanalmente, cada um representando um salto temporal na vida dos personagens. Por mais que o lançamento em trios se repita, eles não têm mais o luxo de compartimentalizar, apresentando uma narrativa corrida do início ao fim.
O arco mais desenvolvido é o das irmãs Jinx e Vi. É o coração da série e felizmente se mantém forte como sempre foi. Não posso dizer o mesmo para os outros. Uma nova dinâmica é introduzida no arco dos cientistas Jayce e Viktor, que sofre com pouco tempo de maturação. Há decisões aqui tão importantes que são tomadas rapidamente, e momentos de crescimento que acontecem de um episódio para outro sem muita explicação. Eles elevam o nível de impacto e perigo a patamares maiores que a briga de Jinx e Vi, com pinceladas lynchianas, mas não ganham o mesmo tempo de tela para convencer o espectador. Além desses núcleos, o que mais sofre é o da Mel e sua mãe Ambessa. Elas desenvolvem uma inimizade desde a primeira temporada, quando a mãe chega do reino vizinho para ameaçar a confiança da filha, que alcançou uma posição de poder importante na sociedade de Piltover. Vemos muito pouco das duas, e menos ainda delas juntas. No confronto final, as consequências não chocam tanto quanto deveriam, e o desenvolvimento da Mel é mais abrupto que o de Viktor, ao também seguir um caminho inesperado que mudará seu futuro.
A segunda temporada não conversa com a primeira em seu formato, que desenvolvia essas tramas com calma, dando o devido tempo aos personagens para crescerem. Aqui quase tudo é apressado, me fazendo pensar se foi realmente uma decisão criativa, conforme afirmada pelos criadores, em terminar essa história aqui. Os estreiantes Christian Linke e Alex Yee desbancaram todos os meus medos na primeira temporada ao serem escolhidos para liderar esse projeto sem terem escrito série ou filme prévio. Agora parecem ter pedido muito do que executaram com êxito. Gostaria de ter mais episódios ou quem sabe mais uma temporada inteira antes do final, que pudesse maturar as jornadas antes da conclusão.
Uma observação deve ser feita em relação às músicas. Apostando em uma fórmula que funcionou antes, eles decidem aumentar as inserções de canções criadas para a série. Há uma música inédita em pelo menos todo início e fim de episódio. Algumas são ótimas, mas muitas parecem desconexas do estilo do universo já estabelecido e da própria trilha sonora composta por Andrew Kierszenbaum e Alex Seaver, e se misturam à bagunça generalizada dessa temporada.
Todavia, o resultado não é agridoce. Mesmo com todas as ressalvas, os criadores e roteiristas entendem a importância de momentos calmos e pessoais no texto e fornecem pelo menos um para cada personagem. Não é tudo um trem de ação desenfreado pronto para descarrilhar. O episódio final é emocionante e consegue amarrar todas as tramas em um fim impactante, provando que a problemática está no meio do desenvolvimento, e não nos caminhos escolhidos e traçados para cada um.
Arcane sem dúvidas vai entrar para a história como um projeto derivado de um jogo popular, porém nichado, que transcendeu o mundo dos videogames e ascendeu aos maiores patamares de produção e reconhecimento que uma animação poderia esperar. Quase tudo é maior e melhor no segundo ano, exceto o que mais importa: a narrativa. Mesmo a Riot prometendo que derivados virão, são os núcleos dessa série que me fisgaram da primeira vez e fizeram esperar tão pacientemente todo esse tempo. É um resultado excelente que eu adoraria chamar de brilhante. Estou torcendo para que o futuro apague as minhas incertezas e eu revisite a série adiante, podendo atribuir-lhe esse título e talvez outros maiores.




