Heretic (2024) | Dir.: Scott Beck e Bryan Woods |
Quando a irmã Paxton, personagem da atriz Chloe East, se vira para a irmã Barnes, interpretada pela Sophie Thatcher, e diz que mórmons não são tão ruins quanto todos pensam já que as pessoas se pautam demais no musical dos criadores de South Park, The Book of Mormon, eu não poderia estar mais pronto para vê-las sofrerem na mão de um estranho durante duas horas de um filme de terror. Principalmente quando esse estranho é o Hugh Grant de suéter e óculos, em uma performance arrebatadora.
Acho um culto inconveniente, em que seus participantes são mandados para baterem à porta dos outros perguntando se querem ouvir as palavras do profeta Joseph Smith. Sim, sou fã do musical (vi mais de três vezes) e não posso dizer que isso deixou de afetar minha visão de mórmons no geral, mas já tive experiências próximas com conhecidos que se juntaram à ideologia dos “bate-portas” e compartilham de suas crenças datadas.
Precisamente de crenças que esse filme vai tratar, quando as duas missionárias visitam a casa de um homem que teria se interessado em converter-se ao mormonismo. Mr. Reed está esperando as duas com uma torta de mirtilo no forno, e refrigerantes para agradá-las enquanto sua mulher não se junta a eles, já que a doutrina não permite que as duas permaneçam sozinhas no mesmo recinto com um homem. Lá fora, uma tempestade começa, à medida que as coisas vão tomando um rumo diferente do previsto para as duas meninas.
Estão colocados os ingredientes para uma receita de um terror excelente, dos escritores de Um Lugar Silencioso, Scott Beck e Bryan Woods. Vou admitir que estava com bastante receio deste projeto, já que o filme anterior que os dois fizeram o papel duplo de roteirizar e dirigir foi 65 – Ameaça Pré-Histórica, com Adam Driver. Não só é péssimo, como pode ter sido o pior filme que vi ano passado.
Felizmente, o acerto é forte em Herege, tanto no texto como na mão forte que eles provam para dirigir cenas de suspense em espaços muito confinados. 65 almeja ser um sci-fi mirabolante, em que o personagem principal precisa desbravar e atravessar um planeta desconhecido. O resultado é enfadonho, parece uma cópia pior do já ruim Depois da Terra. Como o bom ditado “menos é mais” comprova, diminuir o tom para uma única casa e três personagens era o cenário que eles precisavam para deixar a imaginação aflorar.
Minha indisposição com mórmons foi logo colocada a teste quando essas missionárias começam a contar sobre as suas vidas pessoais para esse estranho com quem estão presas. Já conhecia a Sophie Thatcher da série Yellowjackets, em que a personagem dela é um dos poucos destaques positivos. Mas novata Chloe East roubou minha atenção logo nos primeiros minutos. Ela faz a inocência da personagem palpável, sem transformá-la em um alívio cômico. Ela quer conhecer, mas também está disposta a contestar o que vê e o que aprende. As duas formam uma ótima dupla.
Contudo, não há filme sem o Hugh Grant e seu brilhante Mr. Reed. A performance dele é a engrenagem que faz o filme inteiro rodar. Não há como não gostar do personagem com seu suéter xadrez e óculos grandes desde o momento em que ele abre a porta de casa. Suas contestações sobre religião levam a aulas de teologia que eu ficaria horas escutando. Um tipo de personagem que precisa de um ator desse calibre para ter impacto. Se trocássemos ele por um Josh Hartnett como em Armadilha (Trap), o filme todo cai por terra.
Em alguns momentos o texto exagera fazendo-o explicar curiosidades em nível de um quiz de bar, e acho que ele poderia ter dado um passo a mais e tentado um sotaque americano, para entrar completamente no estereótipo do estadunidense que mora isolado e leva suas loucuras a patamares inesperados. Só que são fatores tão pequenos comparados ao todo da interpretação, que relevei-os sem hesitar. Sua casa vai se abrindo em ambientes secretos, surpreendendo o espectador e pronto para agradar qualquer fã da franquia Resident Evil. Eu facilmente participaria dos “jogos” que ele propõe às meninas, mesmo sabendo dos riscos, tamanho o carisma que ele emana.
Tive medo em um certo momento na metade do filme que ele tomasse um caminho diferente de onde estava indo e me perdesse no final. Algo similar a Noites Brutais (Barbarian), de 2022, um dos começos mais fortes que já vi em um terror e que se assemelha bastante com esse filme, mas que diverge tanto em sua segunda metade que perde todo impacto do início da trama. Meus medos se provaram errados quando o roteiro dá uma pirueta e aterrissa no lugar certo, entregando um final catártico que me deixou com um sorriso no rosto, feito raro para o gênero nos dias de hoje.
Herege traz tudo de bom para um filme de terror. Três performances fortes, com um gênio entre elas, e uma história que eleva a expectativa a cada cena, confiante em sua conclusão. Se os temas sobre religião e crença não te conquistarem, pode ter certeza que o protagonista carcereiro irá.




