Emilia Pérez (2024) | Dir.: Jacques Audiard |
Eu sou fã declarado de musicais. Minha preferência é por assistir no teatro, mas tenho nos meus filmes favoritos algumas dessas adaptações para o cinema como A Noviça Rebelde e Chicago. Excelentes musicais também podem nascer diretamente nas telas, como Um Americano em Paris, O Mágico de Oz e La La Land.
O que importa para algo funcionar como musical é simples em conceito, mas cada vez mais difícil de acertar, ter boa música. Ela precisa conversar com os personagens e com o andar da trama, em um conjunto de melodia e letra. O que mais me irritou em Emilia Pérez, o filme do diretor francês Jacques Audiard que está ganhando a crítica nessa temporada de premiações, é que no fundo ele possui uma história interessante. Tem bons atores e uma trama intrigante, mas é arruinado por uma seleção de terríveis números musicais, parecendo uma paródia ruim das piores canções do Lin-Manuel Miranda.
No México, acompanhamos Rita, a personagem de Zoe Saldana, uma advogada mal-sucedida que é sequestrada e obrigada a realizar um trabalho para o chefe de um cartel mexicano. O perigoso infrator, Manitas, quer largar sua vida do crime e sumir do mapa. Por trás desse desejo de recomeçar tudo, há outro bem maior e presente nele desde criança: tornar-se uma mulher. Ele contrata a advogada para planejar seu sumiço e sua operação de transição.
Outra parte do trabalho está em cuidar do destino de Jessi, esposa de Manitas, mãe de seus dois filhos, e interpretada por Selena Gomez. Ela não está nos planos do criminoso para sua nova vida, que forjará sua própria morte e deixará uma generosa herança para a família. O filme dá uma desculpa para a atriz americana com ascendência mexicana ter um leve sotaque de sua língua mãe nas falas em espanhol. Contudo, o maior problema está em Gomez ser uma péssima atriz, com ou sem sotaque. Suas caras e bocas de uma mãe desesperada são sempre fracas ou exageradas, e a entrega de cada fala parece um final de uma piada sem graça.
Até o momento da operação, na marca dos 40 minutos, eu estava bastante investido na história do filme. Temos um salto temporal logo em seguida, voltando a Rita quatro anos depois. Agora levando uma carreira de sucesso, fantasmas do passado retornarão para assombrá-la, e ela se vê tendo que prestar novamente serviço para o antigo dono do cartel, que agora é a imponente empresária Emilia Pérez.
A atriz espanhola Karla Sofía Gascón interpreta essa personagem em suas duas etapas de vida. Ela faz um papel ótimo em apresentar um mafioso amedrontador na primeira parte e uma mulher aparentemente calorosa na segunda. Quando ela decide terminar seu ostracismo, somente a personagem da Zoe Saldana a reconhece, criando uma dinâmica muito interessante no filme. Emilia é uma mulher mudada, mais amigável, que busca se reconciliar com seu passado e fazer o bem. Mas, como o espectador sabe, esse passado foi muito violento e cobrará seu preço. Assim, sempre duvidamos das reais intenções da personagem.
Por mais que seja uma dinâmica presente, gostaria que o filme tivesse explorado mais essa dicotomia da Emilia. Ele foca mais no custo de tentar mudar o passado do que duvidar das suas intenções de doravante, fazer somente o bem. Eu estava questionando isso mais do que a personagem da Zoe Saldana, que presenciou o final do reinado violento de Manitas, mas aceita uma parceria com ela e suas mudanças de posição sobre quase tudo.
Existe o comentário muito interessante sobre essa ser uma mulher trans que teve seus desejos oprimidos desde a infância, obrigada a viver em um mundo imposto a ela que não permitiu sua verdadeira identidade aflorar. Esses desejos se tornam opressão, que ela distribui como violência enquanto chefe do crime. Após a operação, sendo tudo o que sempre quis ser, essa necessidade de retaliação ficou para trás. Entretanto, sabemos dos seus atos de maldade anteriores à transição, que extrapolam o limite da opressão. O confronto psicológico entre o que era mau e agora é bom fica a cargo do espectador teorizar. Até mesmo em um momento que ela comete um ato que remete diretamente ao seu modo de vida anterior, a personagem faz parecer uma decisão despreocupada que não é contestada por ela ou percebida pelas amizades em volta.
Todo filme e essas discussões são quase invalidados pelo aspecto musical. A trilha sonora é do Clément Ducol, e as músicas originais da cantora francesa Camille, que canta Le Festin no filme Ratatouille. Falta a sensibilidade na cantora para escrever um verdadeiro musical e guiar essa trama por meio das músicas. Todas são péssimas, sem conexão entre si, e quase vinhetas de um a dois minutos que você agoniza quando sente que os personagens vão abrir a boca e começar a cantar. Os atores parecem que não tiveram nenhuma direção musical e zero treino de voz. A Zoe Saldana até que não passa vergonha cantando e dançando, quando comparada às colegas Karla Sofía Gascón e Selena Gomez. O nível de algumas dessas inserções é tão ruim que eu me perguntei se os atores não estavam improvisando tudo no set de filmagem.
Essa falta de unidade nos temas musicais fere o filme e me faz questionar novamente por que esse caminho no formato. Na minha visão, essa história e esses personagens em momento algum pedem para se expressarem em canção. Sem falar das letras, a maioria nem se dando ao trabalho de rimar. Aqui eu dou o benefício da dúvida para a Camille, que teve suas letras traduzidas para o espanhol por outra pessoa. Mesmo assim, meu nível de espanhol é longe do avançado e pude perceber essas longas estrofes sem rima alguma. Essas canções são tão esquecíveis e desconexas que me permito falar bem do resto do filme, já que não lembro da maioria.
O final também não ajuda. O clímax do filme capota, já que não consegue fechar de maneira satisfatória o arco narrativo do trio principal (Saldana, Gascón e Gomez), em que investi bastante ao longo da trama. O confronto final é desanimador e toma um rumo que não esperava e não me impactou de forma alguma.
Talvez a salvação esteja na cena final, quase como um epílogo, em que o simbolismo do filme se revela como um todo. Obriga o espectador a pensar e é interessante, só faltou a complexidade no meio para o final da narrativa para acompanhar o forte começo. Engraçado dizer que entra aqui a única música que funciona, que é diegética, faz parte da realidade própria daquele momento e condiz com o tipo de ritual que está sendo realizado.
Emilia Pérez, em condições normais, é um filme que facilmente passaria de forma indiferente por mim ao longo do ano, e não me obrigaria a ser tão enfático em uma crítica. Mas o surto coletivo que tomou Hollywood em laurear o filme ao longo da temporada de premiações me obriga a sentar e escrever um SOS desses. Guardo a atuação impactante de Gascón de forma positiva, mas em um ano com candidatos internacionais muito mais notáveis, há coisa melhor para se ver e gastar o tempo.




