O Senhor dos Anéis: A Guerra dos Rohirrim (2024) | Dir.: Kenji Kamiyama |
Depois que a Amazon adquiriu os direitos dos apêndices do livro de J.R.R. Tolkien, a comunidade não sabia mais o que esperar dessa amada franquia de hobbits, magos e anões. Após duas décadas de adaptações sob a tutela da Warner/New Line, outros teriam a chance de explorar esse universo tão rico. Contudo, mesmo com méritos visuais e alta audiência, o resultado tem se provado um tropeço narrativo.
As duas trilogias do Peter Jackson, O Senhor dos Anéis e O Hobbit, não estão isentas de críticas, principalmente a segunda. Porém, mesmo no final pouco inspirado de A Batalha dos Cinco Exércitos (2014), o universo ainda mantinha sua coerência com as obras e com os conceitos introduzidos pelo diretor e suas parceiras de roteiro, Philippa Boyens e Fran Walsh. Fico feliz ao ver a volta dessa equipe produzindo mais um filme no universo do Tolkien. Afinal de contas, é nas telas do cinema que ele merece estar.
O filme tem como protagonista a Héra, com a voz da inglesa Gaia Wise. Ela é filha do Helm Mão-de-Martelo, rei de Rohan e personagem que dá o nome à fortaleza que é criada entre uma cadeia isolada de montanhas, cem anos antes do Bilbo encontrar o anel. Após ela negar um pedido de casamento de um reino vizinho, uma guerra se inicia, liderada por Helm e seus filhos. Ela não é permitida a participar das batalhas, motivo de alta frustração, já que a personagem é uma entusiasta em cavalaria e lutas de espada.
Quem dá voz ao Helm é o Brian Cox, e espere toda força e pompa nos seus gritos de batalha e ordens dadas aos pelotões. O seu personagem e a Héra são os melhores desenvolvidos do filme, que traz uma história fraca e um tanto quanto rasa. Uma das dificuldades em adaptar Tolkien está na miríade de conteúdo existente escrito pelo autor, mas bloqueada por uma parede de direitos autorais. A porção da produtora New Line só permite acesso aos três volumes de O Senhor dos Anéis, e os roteiristas tiveram que aproveitar uma breve passagem de As Duas Torres para usarem de fonte.
É muito confortável ver o filme se encaixar nesse universo do Peter Jackson, por mais que não acrescente muito. Contudo, peguemos o nome do filme, A Guerra dos Rohirrim. O roteiro nem se dá muito ao trabalho de contar quem são os Rohirrim e por que se envolveriam nessa luta. O próprio motivo da guerra não passa de uma decisão tomada de impulso por um dos personagens que é parte de um relacionamento que não vemos se desenvolver em tela. Existe a limitação da obra base, porém, em um filme com mais de duas horas, mais poderia ter sido trabalhado.
Os cenários são incrivelmente detalhados, mas destoam do traço mais cartunesco e dos contornos em negrito dos personagens. As sequências de ação não são simples, mas falta uma inspiração extra nos traços e movimentos, presentes até em séries de anime sem o apoio de grandes estúdios por trás. Uma das melhores cenas é do personagem do Brian Cox, que envolve uma sequência longa que termina em uma luta durante uma nevasca. Um dos poucos momentos de grandeza de personagem com animação que poderia pautar o resto do longa.
Parte se justifica no filme ter sido encomendado às pressas pela Warner, que precisava lançar algo neste ano para não perder os direitos autorais, já que o trio Jackson, Boyens e Walsh está trabalhando em outro projeto da franquia, que ficará para 2026. Comparado a outros filmes feitos sob o mesmo cenário, como Quarteto Fantástico (2015), esse se sai bem melhor do que poderia ser, mesmo sendo bem menos do que deveria. O universo do Tolkien possui uma magia única, transmitindo uma sensação de acolhimento em meio à sua grandiosidade, algo que este filme consegue evocar sem precisar recorrer a muitas referências diretas da trilogia principal.
Dito isso, eu gostei do formato. A grandeza que separa esse filme da trilogia está mais na trama e riqueza dos personagens do que no formato de animação contra live action. Torço para que O Senhor dos Anéis não caia na mesma linha de Star Wars, que teve sua mitologia revirada, contestada e cansada ao final de diversos projetos fracassados e sem os criativos certos envolvidos. Quem sabe um dia a família Tolkien decida vender os direitos do Silmarillion para a Warner, e poderemos ver as histórias maravilhosas presentes naquele livro contadas em animações individuais de duas horas. Com sorte, teremos um trabalho mais refinado e memorável, preservando a magia da Terra Média.




