Conclave (2024) | Dir.: Edward Berger |
Há dois anos, tentei assistir “Nada de Novo no Front” (All Quiet on the Western Front), adaptação do mesmo diretor do afamado livro homônimo. Não consegui chegar ao fim, já que dramas de guerra raramente apelam a mim. Acho que sou de uma geração muito distante do passado das grandes guerras para me conectar tanto quanto algumas pessoas. O filme foi sucesso, arrebatando diversos prêmios da temporada e a estatueta do Oscar de melhor filme estrangeiro. Mesmo com todo reconhecimento, não me interessei em dar uma segunda chance, até agora.
Conclave é um filme que adorei, já que acerta em como adaptar um livro para a grande tela, focando nos diálogos afiados dos personagens, que refletem seus dramas em um suspense que se sustenta ao longo de duas horas. O filme começa com a morte do atual papa, e a repercussão imediata da comunidade eclesiástica em volta do cargo. Com a necessidade de eleger um novo papa, um conclave é convocado no Vaticano.
Quem comanda essa cerimônia emergencial é o padre Lawrence, interpretado com uma força inigualável pelo ator inglês Ralph Fiennes. Assim que todos membros do clero se apresentam, eles são postos in sequestro, enclausurados nas acomodações pontificais sem qualquer comunicação ou visão do mundo externo. O filme não perde tempo em estabelecer essa atmosfera de tensão, em que precisam eleger alguém, mas não há candidatos capazes de agradar a todos.
O foco está no personagem do Ralph Fiennes, que poderia facilmente desbancar os seus parceiros de cena caso não tivesse contracenando com candidatos tão competentes. Os cardeais interessados na posição recente aberta são interpretados pelos brilhantes John Lithgow, Lucian Msamati, Sergio Castellitto e Stanley Tucci, que parece o mais reticente a estar ali nessa concorrência, por mais que ele diga em uma conversa com o protagonista que não há cardeal vivo que não tenha pensado em qual seria seu nome como papa.
Sem boca de urna e sem pesquisa de voto, nos surpreendemos tanto quanto os personagens quando são revelados os resultados das votações ao longo do filme. A vitória, como em um real conclave, só pode se dar com dois terços dos votos para o mesmo candidato. E o filme faz questão em preparar uma virada entre cada um desses encontros que terminam em fumaça preta, que pode abalar completamente os resultados. Além disso, o confinamento intensifica a atmosfera do filme, com conversas e sussurros que ecoam pelas paredes das celas, e escândalos difíceis de esconder entre os poucos espaços de convivência.
O filme é baseado no livro do Robert Harris. Dessa vez, o Edward Berger não tem participação no roteiro, que ficou a cargo de Peter Straughan. Um elogio a essa relação de roteiro mais direção cabe aqui, já que o ritmo acelerado não permite que você olhe para o relógio ao longo do filme. Não há cena sobrando e todas as performances acrescentam a esse drama. Me lembrou a sensação de ler um bom livro do Dan Brown, sem o sobrenatural ou relações com ocultismo, deixados de lado por Harris na sua trama. Aqui temos um bom e velho drama de personagens, que não tem para onde fugir nesse espaço fechado e realista.
Talvez valha uma nota para o papel dado a Isabella Rossellini, uma atriz que eu adoro mas tem uma participação reduzida. A personagem dela é bem interessante e gostaria que tivesse se desenvolvido mais, como uma freira que está acompanhando as minúcias do processo talvez mais próxima do que muitos ali, mas não tem possibilidade de interferir. O Carlos Diehz também adiciona uma camada de intriga a mais, como um cardeal que ninguém sabe de onde vem, e chega de última hora para a preocupação do personagem do Fiennes.
O resultado da eleição é difícil de prever, e você termina o filme com a cara na tela pela apreensão, com surpresas se revelando até seus momentos finais. Somado a um elenco de primeira, Conclave é um filme para os entusiastas de dramas envolvendo a igreja católica, e qualquer um que aprecie um bom suspense.




